Luanda – O 25 de Março constitui um dado significativo no calendário global, pelo facto de se assinalar o “Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos”, que durou mais de 400 anos, e foi uma das maiores atrocidades da história da humanidade.
Por Catarina da Silva, jornalista da ANGOP
Instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 17 de Dezembro de 2007, a data foi escolhida em memória do 25 de Março de 1807, quando o Reino Unido aprovou a Lei de Abolição do Comércio de Escravos, que proibiu o tráfico de escravos no Império Britânico.
Embora esta lei represente um passo significativo, o fim do comércio de escravos não significou o “ponto final” do racismo estrutural ou das profundas desigualdades que foram geradas por mais de 400 anos de exploração e violência.
A efeméride foi designada pela ONU com o objectivo de registar e reflectir sobre o sofrimento de milhões de africanos que foram obrigados a viver sob condições desumanas durante o tráfico transatlântico de escravos.
Entre os séculos XV e XIX, mais de 12 milhões de africanos foram arrancados de suas terras natais e obrigados a atravessar o Atlântico em condições insuportáveis. O comércio transatlântico de escravos alimentou a economia colonial das potências europeias e das plantações nas Américas, que dependiam da mão-de-obra escravizada.
Os escravizados eram transportados em navios superlotados e, muitas vezes, morriam durante a viagem, devido às péssimas condições de saúde, alimentação e higiene.
As vítimas do tráfico eram obrigadas a abandonar suas culturas, famílias e identidades.
Embora o sistema de escravidão tenha sido formalmente abolido no século XIX, seus efeitos perduraram por séculos, afectando a vida de milhões de descendentes e de comunidades inteiras, marcando a história de nações e alterando o curso do destino de povos inteiros.
Por que Comemorar o 25 de Março?
O Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos serve para manter viva a memória das vítimas do tráfico de escravos e como um chamado para que o mundo reconheça e combata as consequências do racismo e da discriminação racial, que começam a afectar as sociedades contemporâneas, especialmente as comunidades afrodescendentes.
A falta de reconhecimento oficial sobre os impactos da escravidão nas políticas públicas tem dificultado a implementação de reparações e acções que possam promover a igualdade entre as diversas etnias que formam as sociedades modernas. O movimento de reparações é uma questão central em muitos países, com algumas nações e organizações enviadas por compensações para as comunidades afrodescendentes.
Além disso, os dados se colocam como um momento de reafirmação do compromisso com o respeito à diversidade cultural e com a construção de sociedades mais inclusivas e justas.
Particularmente para África, a data ganha ênfase depois de a União Africana (UA) ter consagrado para o ano de 2025 o tema “Justiça para os africanos e as pessoas de ascendência africana através de reparações”.
A propósito, UA adoptou, em Fevereiro, um projecto de classificação da escravatura, da deportação e do colonialismo como crimes contra a humanidade.
É importante que se aborde de maneira aberta e profunda o período da escravidão, não apenas como um acontecimento distante, mas como um fenómeno com repercussões directas sobre o presente.
Numa das mensagens para saudar a data, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, pediu união contra o racismo e pela construção da vida com liberdade, dignidade e direitos humanos.
A mensagem do secretário-geral cita os mais de 400 anos em que milhões de africanos, de todas as idades, foram traficados pelo Atlântico após serem arrancados de suas famílias, pátrias e comunidades para serem vendidos e privados da humanidade.
António Guterres disse que a história da escravidão é marcada por sofrimento e barbárie que mostra o pior da humanidade. Mas, segundo ele, a história é inspirada em coragem que mostra os seres humanos desde pessoas escravizadas que se levantaram contra situações impossíveis até os abolicionistas que lutaram contra esse crime cruel.
História de resistência e liberdade
Embora a escravidão tenha causado muito sofrimento, também gerou uma história de resistência, com os escravizados e seus descendentes lutando contra a opressão. Movimentos de abolição e de luta pelos direitos civis nasceram nesse contexto e continuam a inspirar a luta por justiça social.
O exemplo da rebelião de Toussaint L'Ouverture, que levou à independência do Haiti, a primeira República negra do mundo, é um símbolo dessa resistência. Também, os movimentos afrodescendentes, como o Black Lives Matter, nos EUA, continuam a lutar contra o racismo sistêmico, buscando uma sociedade mais justa e igualitária.
A data, 25 de Março, deve ser lembrada como um dia não apenas de memória, mas também de acção. A luta contra o racismo, a discriminação racial e as desigualdades estruturais deve continuar a ser uma prioridade global.
Ao registar as vítimas do tráfico transatlântico de escravos, é essencial considerar o impacto contínuo desse período na vida das comunidades afrodescendentes e trabalhar para construir um futuro onde a igualdade e a dignidade de todos os seres humanos sejam garantidas, sem distinção de raça, etnia ou origem. CS/ADR