Lisboa - O ano de 2019 foi o quinto em que se verificou um aumento do número de mortes causadas por minas terrestres, restos de munições e outros resíduos explosivos de guerra, revela o relatório Monitor de Minas 2020 divulgado hoje.
No ano passado, foram registadas 5.554 vítimas de minas ou resíduos explosivos de guerra, das quais 2.170 pessoas morreram, 3.357 ficaram feridas e 27 tiveram destino desconhecido, adianta o documento.
Apesar do total de vítimas em 2019 ter sido menor dos que as 6.897 contabilizadas em 2018, o número foi 60 por cento maior do que o de 2013, quando os registos apontaram para 3.457 vítimas.
O contínuo crescimento das vítimas de minas e resíduos explosivos desde 2014 é consequência, segundo os investigadores, de conflitos armados e intensivos em vários países do mundo, que fazem uso em grande escala de minas improvisadas.
Desde meados de 2019 até Outubro deste ano, o Monitor de Minas confirmou o uso de minas pelas forças governamentais de mais um país, o Myanmar (antiga Birmânia), que não assinou a Convenção sobre a Proibição do Uso, Armazenamento, Produção e Transferência de Minas Antipessoais e sobre a sua Destruição, mais conhecida como Tratado de Ottawa.
Mas as minas foram sobretudo usadas por grupos armados não estatais, como aconteceu, de acordo com o relatório, pelo menos no Afeganistão, na Colômbia, na Índia, na Líbia, em Myanmar e no Paquistão.
Além disso, os investigadores receberam alegações não confirmadas de uso desses engenhos por grupos de guerrilha em países como o Burkina Faso, Camarões, Chade, Egipto, Mali, Níger, Nigéria, Filipinas, Somália, Síria, Tunísia, Turquia e Iémen.
A maioria das vítimas (80%) de minas e resíduos explosivos de guerra foram civis, refere o documento, acrescentando que, no ano passado, as crianças representaram 43 por cento de todas as vítimas civis em que a idade era conhecida.
O monitor alerta ainda que havia, em Outubro passado, 60 Estados e territórios contaminados por minas antipessoal, incluindo 33 membros que assinaram a Convenção.
Além disso, três Estados que fazem parte do acordo para acabar com as minas devem esclarecer a extensão da contaminação residual, adiantam os investigadores, apontando a Argélia, o Koweit e Nicarágua, e outros países-membros terão de fornecer informações relativamente a suspeitas de contaminação por minas improvisadas: Burkina Faso, Camarões, Mali, Nigéria e Tunísia.
Também a Mauritânia, que se declarou livre de minas em 2018,
relatou este ano ter encontrado novas contaminações relativas ao conflito no Sahara nos anos 1970.
Os investigadores acreditam que contaminações massivas com minas antipessoais (definidas pelo Monitor como áreas de mais de 100km2) existem em 10 Estados-membros da Convenção: Afeganistão, Bósnia e Herzegovina, Cambodja, Croácia, Etiópia, Iraque, Tailândia, Turquia, Ucrânia e Iémen.
Apesar de a limpeza e desminagem de territórios de vários países ser contínua, este ano as operações tiveram de ser "temporariamente suspensas devido a restrições relacionadas com a covid-19", admitem os investigadores no relatório, adiantando que a suspensão afectou sobretudo Arménia, Bósnia e Herzegovina, Chade, Colômbia, Líbano, Peru, Senegal, Vietname e Zimbábue, além de zonas do Kosovo e do Sahara Ocidental e as Ilhas Falkland/ Malvinas.
No ano passado, a maior limpeza de áreas minadas foi alcançada no Afeganistão, Cambodja, Croácia e Iraque, que, no seu conjunto, responderam por 86 por cento de toda a desminagem registada no ano.
O Chile tornou-se, no início de 2020, o mais recente Estado-membro da convenção a declarar a conclusão da limpeza de todas as áreas minadas.